Yago Dionizio: ator cego da Zona Norte transforma desafios em luta por inclusão no teatro
Ator, jornalista e consultor de acessibilidade, Yago Dionizio defende que artistas com deficiência não sejam reduzidos à deficiência e ocupem diferentes espaços na cultura
Nas artes cênicas, interpretar diferentes personagens faz parte do ofício de um ator. Para Yago Dionizio, ator cego da Zona Norte de São Paulo, essa possibilidade também representa uma forma de combater o capacitismo e ampliar a presença das pessoas com deficiência no teatro e na cultura.
Ator profissional e jornalista, Yago construiu sua trajetória entre a atuação, a produção cultural, o jornalismo e a defesa da acessibilidade. Sua experiência pessoal como pessoa com deficiência visual também influenciou diretamente sua atuação profissional.
Hoje, além de atuar, ele é idealizador do projeto de teatro inclusivo “Leitura às Cegas” e trabalha como consultor de acessibilidade em projetos culturais.

Foto: Divulgação Peça Teatral Leitura às Cegas
Da perda da visão à construção de uma carreira artística
Yago nasceu enxergando normalmente. Ainda criança, porém, começou a enfrentar problemas de saúde ocular. Por volta dos três anos, perdeu a visão do olho esquerdo e passou a ser uma pessoa com deficiência monocular. Na época, segundo ele, essa condição ainda não era reconhecida legalmente como deficiência.
Aos oito anos, perdeu também a visão do olho direito. Depois de uma cirurgia de emergência, recuperou aproximadamente 5% da visão e passou a viver como pessoa com baixa visão, utilizando o olho direito para enxergar.
Dos oito aos 22 anos, essa foi a sua realidade. Posteriormente, perdeu completamente a visão e tornou-se uma pessoa cega.
A trajetória escolar também foi marcada por dificuldades. Yago conta que, durante sua formação, ainda havia pouca disponibilidade de tecnologias assistivas, falta de profissionais especializados e pouco conhecimento entre os próprios estudantes sobre a realidade das pessoas com deficiência.
Para ele, a inclusão não acontece simplesmente ao colocar um aluno com deficiência dentro de uma sala de aula.
“A inclusão vai muito além disso: é necessário oferecer recursos, adaptações e ferramentas para que o aluno tenha autonomia.”
A experiência vivida na educação ajudou a formar uma percepção que posteriormente seria levada para sua atuação profissional: acessibilidade não significa apenas permitir que uma pessoa esteja presente, mas garantir condições para que ela participe de forma plena e autônoma.
O teatro surgiu como oportunidade e também como caminho profissional
A primeira experiência que Yago considera profissional no teatro aconteceu em 2017. Naquele ano, foi convidado a integrar um instituto e ficou responsável por questões culturais.
Foi nesse contexto que recebeu o convite para escrever, dirigir e atuar no espetáculo infantil “O Que Vale Mais”, apresentado em homenagem ao Dia das Crianças. A peça propunha uma reflexão sobre o que realmente tem valor: receber bons presentes ou construir boas amizades.
O trabalho marcou o início de uma trajetória que reuniria três funções que continuam presentes em sua carreira: criação, direção e atuação.
Também em 2017, Yago iniciou seus estudos de teatro na Oficina de Atores Nilton Travesso, onde permaneceu até 2020. Durante a formação, participou de peças de teatro comercial e ampliou sua experiência artística.
A partir de 2022, já formado e com registro profissional de ator, passou a consolidar sua atuação no mercado.

Foto: Divulgação
“Muitas vezes, fui visto primeiro pela minha deficiência”
A decisão de também atuar como diretor e produtor nasceu, segundo Yago, de uma necessidade prática: criar suas próprias oportunidades.
Ao longo da carreira, ele percebeu que existia uma resistência em reconhecer pessoas com deficiência visual em funções que exigem autonomia, agilidade e capacidade de lidar com situações inesperadas.
A produção cultural é um desses exemplos.
Para Yago, existe uma visão equivocada de que uma pessoa cega teria dificuldades para exercer atividades como organizar projetos, resolver problemas, administrar conflitos ou lidar com imprevistos.
Essa percepção, afirma, faz com que muitas vezes a deficiência seja enxergada antes das competências profissionais.
“Muitas vezes, eu fui visto primeiro pela minha deficiência e não pelas minhas competências.”
É justamente contra essa lógica que ele procura construir sua trajetória.
Artista com deficiência, mas não apenas artista com deficiência
Yago não rejeita a identificação como artista com deficiência. Pelo contrário. Para ele, sua deficiência faz parte de sua história e não precisa ser escondida.
O problema está em transformar essa característica em uma definição completa de quem ele é.
Ele se considera ator, diretor, produtor, jornalista e profissional de acessibilidade — e também uma pessoa cega.
Essa diferença é importante para compreender sua visão sobre representatividade.
Yago afirma que nunca teve medo de interpretar personagens sem deficiência. Desde sua formação até sua entrada no mercado profissional, interpretou personagens que não tinham deficiência visual.
Para ele, artistas com deficiência devem ter a mesma liberdade artística concedida aos demais atores.
O fato de ser cego não deveria determinar automaticamente quais personagens pode interpretar.
Contra os estereótipos sobre pessoas cegas
A discussão sobre representatividade também passa pela maneira como pessoas com deficiência são retratadas em filmes, novelas, séries e peças de teatro.
Yago chama atenção para os estereótipos frequentemente associados à cegueira. Segundo ele, uma pessoa com deficiência visual não necessariamente anda de maneira insegura, tropeça constantemente, mantém a cabeça baixa ou fala de uma determinada forma.
A deficiência visual não determina a personalidade de alguém.
Por isso, ele afirma ter interesse em personagens complexos, com diferentes características e conflitos — incluindo vilões, heróis e personagens debochados ou exagerados.
Para Yago, essa diversidade se aproxima muito mais da experiência humana real.
Também por isso, interpretar um personagem com deficiência visual não deveria significar reproduzir automaticamente os estereótipos associados à cegueira.
Acessibilidade para além da presença
Além do trabalho como ator, Yago atua como jornalista e consultor de acessibilidade em projetos culturais.
Nesse trabalho, seu objetivo é contribuir para que pessoas com deficiência possam usufruir plenamente de espetáculos e outras manifestações artísticas.
Um dos recursos citados por ele é a audiodescrição, tecnologia assistiva fundamental para ampliar o acesso de pessoas cegas ou com baixa visão a produções culturais.
A preparação, explica, envolve entender as características de cada espetáculo e identificar quais recursos são necessários para que a pessoa com deficiência consiga acompanhar e aproveitar a experiência.
A acessibilidade, portanto, precisa ser pensada desde a concepção da atividade cultural e não apenas como uma adaptação feita posteriormente.
“Não aceito ser reduzido apenas a essa característica”
A trajetória de Yago reúne uma questão que ultrapassa o teatro: o direito de pessoas com deficiência ocuparem diferentes espaços profissionais sem que sua deficiência seja usada para limitar suas possibilidades.
Ele não tem problema em ser reconhecido como um artista com deficiência. O que rejeita é ser colocado exclusivamente nessa categoria.
Para ele, a presença de artistas com deficiência nos espaços culturais também é uma forma de transformação.
Isso significa ocupar palcos, assumir funções de direção e produção, participar da criação de projetos e defender o próprio trabalho.
Yago reconhece que se posicionar diante de situações capacitistas pode trazer consequências profissionais. Ainda assim, considera necessário estabelecer limites e defender o direito de trabalhar com respeito e dignidade.
Para ele, uma pessoa com deficiência pode interpretar uma personagem com deficiência, mas essa escolha deve partir de uma decisão artística e profissional — e não de uma imposição baseada em preconceitos.
A história de Yago Dionizio mostra, assim, que inclusão no teatro não significa apenas colocar pessoas com deficiência no palco. Significa também permitir que elas tenham autonomia para criar, dirigir, produzir, escolher seus personagens e construir suas próprias narrativas.
E, principalmente, serem reconhecidas por aquilo que são capazes de fazer — sem que a deficiência seja utilizada para determinar até onde podem chegar.
Para conhecer mais sobre o trabalho de Yago Dionízio, siga seu instagram: https://www.instagram.com/dionizioyago